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5 Novembro, 2006 por cavalca

Um dos maiores atrativos de Smallville é ver Lex ir de amigo (quase) fiel à nêmesis de Clark. Não é a parte técnica que faz de House uma das melhores séries dos últimos anos. O conjunto de mistérios não é o maior atrativo de Lost – talvez até seja para aquela parcela de espectadores que começa a abandonar a serie, ironicamente quando ela começa à respondê-los em número cada vez maior. O que faz de Dexter a série nova mais quente da atualidade definitivamente não é o fator investigação – tema que existe aos quilos na TV americana, CBS que o diga.

O que todos os exemplos acima tem em comum? São seriados que tratam com muito carinho de seus personagens (tá, ultimamente, Smallville vem falhando um pouco nisso). O que nos faz acompanhar uma história toda semana (seja ela uma trama continuada ou composta de episódios isolados) é a vida daquelas pessoas, sejam elas mocinhos, vilões, psicopatas ou simplesmente homens de fé.

E então chegamos ao tema de texto: The West Wing. A série nos joga dentro da Casa Branca. Um universo que, mesmo para nós que somos brasileiros, é fascinante. Mas como cenário não é tudo, o gênio Aaron Sorkin nos presenteia com alguns dos personagens mais fascinantes da história da televisão. Temos de um lado C.J. Cregg, assessora de impressa, que tem a função de passar a mensagem do governo aos jornalistas (e conseqüentemente às outras pessoas). Do outro temos Leo McGarry, chefe de gabinete e segundo homem mais poderoso do país – ou alguém achou que fosse o vice-presidente? E ainda tem o assessor pessoal do presidente, que nutre uma paixão por sua filha. O Sub-Chefe de Gabinete que tem uma relação com alto teor de tensão sexual com sua principal assistente. Tem também o Diretor de Comunicações e seu assessor, sempre na busca das melhores linhas para os discursos do Comandante-em-Chefe da nação.

E pra fechar com chave de ouro, tem o próprio presidente. Dedicado, honesto, trabalhador e com um senso de humor autodepreciativo que é delicioso. Jed Bartlet é o tipo de presidente que todos gostaríamos de ter, em qualquer país do mundo. Uma das maiores qualidades da série é justamente esse idealismo de Aaron Sorkin. Apesar do tratamento realista, seus universos são sempre como ele gostaria que eles fossem. Mas isso pode ser também uma faca de dois gumes. Se aqui isso funciona maravilhosamente bem, em Questão de Honra ele falha miseravelmente (por mais que a atuação de Jack Nicholson na hora de sua confissão seja brilhante, em nenhum momento eu consigo acreditar que um oficial da posição dele faria uma coisa daquelas).

Voltemos ao assunto do texto. Se a construção dos personagens Sorkianos já é maravilhosa, o desenvolvimento deles não fica por menos. Sempre usando diálogos rápidos e na maioria das vezes repletos de humor – são os famosos “walk-and-talks” – Sorkin nos torna íntimo deles e (aqui está o segredo) faz com que nos importemos com eles e seus dramas pessoais.

Como não é bobo, Sorkin sabe que suas criaturas precisam de espaço para brilhar, e para isso ele usa um artifício inteligentíssimo: os episódios centrados em determinados personagens (não, não foi JJ Abrams que inventou essa técnica). C.J. tem The Women of Qumar. Josh nos emociona com sua revelação em Noel. Toby demonstra que é capaz de ter sentimentos em In Excelsis Deo. Bartlet for America é um dos melhores estudos de personagem que a televisão já exibiu – estamos falando de Leo. E temos Two Cathedrals, em que Martin Sheen entrega certamente a melhor atuação de sua carreira, que é provavelmente uma das melhores da década. E não me refiro apenas à TV.

E eis que Sorkin é demitido pela emissora. É o fim da série para os mais xiitas – as famosas viúvas Sorkinianas. Eu não divido essa opinião. Claro, nem tudo são flores. Mas com o passar do tempo, os roteiristas foram engrenando e pegaram o jeito da coisa, chegando em diversos momentos ao mesmo nível de seu antecessor. (Particularmente, considero até mesmo a quinta temporada superior à terceira, que foi sonolenta até dizer chega, exceção feita ao For America já citado anteriormente).

Se tem uma área onde a série saiu ganhando na fase pós-Sorkin, é justamente na ideológica. Ele era assumidamente liberal – e isso era obviamente refletido na série. Com a saída dele, foram contratados vários roteiristas mais conservadores (leia-se: Republicanos) que serviram como uma espécie de contrapeso à WW. Tal influência pode ser claramente vista em episódios como The Supremes – onde ao lado de uma liberal tipicamente Sorkiniana (Glenn Close), temos um conservador tão brilhante quanto (William Fichter). Mas o exemplo mais claro dessa diversidade é obviamente a corrida presidencial nas duas últimas temporadas. Se o opositor de Bartlet na reeleição dele só faltava ter uma gargalhada maléfica, o Arnord Vinick de Alan Alda (brilhante) é na maior parte do tempo um candidato muito mais interessante do que o Matt Santos de Jimmy Smits (competente, mas sempre à sombra de seu adversário na ficção) – isso falado por alguém que, se morasse nos EUA, provavelmente seria um democrata.

Os episódios finais da série serviram para dar um encerramento à todos os personagens e subtramas das história. Em The Cold, vemos o primeiro beijo entre Josh e Donna (depois de sete anos!). Institutional Memory é o desfecho da relação conturbada entre CJ e Danny. Embora Toby não apareça em Tomorrow, sabemos que o episódio final da série é praticamente centrado nele. Mentira, a finale, apesar de mostrar quase todos os personagens, é, antes de qualquer coisa, centrado em Bartlet, triste e abatido – a cena onde ele abre o presente dado pela filha de Leo é tocante – por ter de deixar aquele que foi seu lar durante 8 longos anos, mas com a sensação de dever cumprido.

E assim termina uma das maiores séries de todos os tempos. Agora o que resta é correr atrás das outras coisas que ele fez antes de West Wing: Sports Night e The American President (filme que foi fonte de muitos dos conceitos da série). E Studio 60? Essa eu já estou vendo – e é uma das melhores coisas da nova temporada.

Modéstia à parte, até que esse texto não foi nada ruim, né? O melhor produto possível de uma noite particularmente frustrante, que culminou com a ingestão de uma daquelas lasanhas prontas congeladas por inteiro. Nada que escrever um pouco e que uma dose de sal de frutas não resolvam.

Publicado em Criticas, The West Wing | 8 Comentários

8 Respostas

  1. em 5 Novembro, 2006 às 4:09 pm Paulo Antunes

    Juliano, eu escrevi em algum lugar que TWW era sobretudo uma série de relacionamentos mais do que de política ou personagens. O que faz eles crescerem são especialmente suas relações entre si (Bartlet e a esposa, Bartlet e Leo, Bartlet e Charlie, Toby e Sam, Toby e Josh, Josh e Donna, CJ e a imprensa, etc). Ou seja é uma teoria um pouquinho diferente da tua, porque pra mim si só estes personagens talvez não tenham nada de memorável individualmente.

    Sobre a saída de Sorkin é curioso observar que ele foi afastado pela crítica inteligente a administração Bush. Mas após sua saída a série até fez críticas mais pesadas – só que mais bobas e ingênuas. Todo o arco da negociação de paz em Camp David, é um tremendo tapa na administração Bush. A própria existência de Vinick é uma crítica – criaram um republicano melhor do que os republicanos.


  2. em 5 Novembro, 2006 às 4:43 pm Juliano Cavalca

    Claro que o relacionamento deles são importantes. Mas se não fossem personagens interessantes se relacionando, não ia adiantar nada.

    Obviamente o Vinick é melhor do que os republicanos. Assim como eu tenho certeza que Bartlet e cia são melhores que os democratas. Isso entra naquela cota do idealismo que eu citei – e que acho uma qualidade.


  3. em 5 Novembro, 2006 às 7:34 pm Fer

    ok, começo por um off-topic: tua frase “O conjunto de mistérios não é o maior atrativo de Lost – talvez até seja para aquela parcela de espectadores que começa a abandonar a serie, ironicamente quando ela começa à respondê-los em número cada vez maior” é a mais lúcida sobre a série q eu li até agora. impressionante, eu re-assisti a segunda temporada de uma tacada só no feriado anterior a esse e me impressionei em ver quanta coisa já foi respondida, e como eu acho malas esses caras que ficam querendo tudo explicadinho na série. e olha, tô achando a terceira temporada ainda melhor que a segunda, hein?

    quanto a TWW: eu amo essa série. AMO. meu sonho era viver dentro de uma série do aaron sorkin, qualquer uma dela, mesmo sendo o extra mais insignficante de todos. ainda não vi a sétima temporada, mas já imagino o quanto eu vou chorar com ela.

    uma curiosidade: sabia q os escritores tinham planejado fazer o vinick o novo presidente, e não o santos? eles mudaram de idéia sobre o resultado final depois da morte do john spencer, pq acharam q ia ser um golpe muito forte fazer os democratas perderem a eleição E o vice-presidente ao mesmo tempo.

    Two Cathedrals é, para mim, o melhor episódio não só desta, mas de qualquer série que já tenha existido. me arrepio ao assistir. a terceira e a quinta temporadas são meio devagar, para o meu gosto, mas em compensação a sexta me impressionou positivamente. mas nenhuma supera a segunda, para mim….

    bom, agora é desejar uma longa vida ao Studio 60, e esperar q tu assista Sports Night logo. nem desejo que tu goste da série, porque se tu gostou de Studio 60, tu vai adorar Sports Night!

    deve ter muito mais coisas para falar a respeito, mas não consigo lembrar agora. qqer coisa a gente vai conversando pelos comentários ;-)


  4. em 5 Novembro, 2006 às 8:27 pm Juliano Cavalca

    Eu sabia sim que o Vinick era o vencedor original, o que faz muito mais sentido, já que ele sempre foi muito mais presidenciável que Santos.

    Two Cathedrals está na minha short list de melhores episódios de todos os tempos, junto com o Three Histories de House, os pilotos de Lost e Smallville e mais algumas outras coisas.

    Sobre Lost: essa fúria por respostas está me enchando o saco. E tô achando essa terceira temporada um pouco inferior às outras, principalmente pelos flashbacks, mas vou deixar pra falar mais disso no post sobre a série mais pro final da semana.


  5. em 5 Novembro, 2006 às 11:33 pm Fer

    um dos meus melhores amigos é especialista em filmes de horror (especialista de ter artigo publicado em livro, pra tu ver), principalmente europeu e asiático, e uma coisa q ele me ensinou sobre apreciação de horror eu levo pro Lost: coisa explicadinha demais, fazendo sentido demais, é um saco! eu, honestamente, acho q tem coisa na série q nem precisa ser explicada. se bobear, acho q já explicaram demais (tipo, precisava ter dito, apenas um episódio depois os raios x terem aparecido pela primeira vez, de quem eles eram? nhé!)

    talvez os flashbacks não estejam assim tão bons comparados com os do ano passado no geral, mas relembrando a segunda temporada, o primeiro flashback realmente afudê foi só no episódio 10, né? então, tem tempo :-)


  6. em 6 Novembro, 2006 às 12:42 am Anderson Vidoni

    Gostei do texto, mesmo eu estando ainda na 2° temporada da série. Não vejo a hora de terminar de vê-la. Foi bom ver que ela ainda vai continuar e aumentar os leques de discussão, além de novos personagens, como o do Alda.

    Sobre Lost, não vou me prolongar, só dizer que novamente concordo com você.


  7. em 6 Novembro, 2006 às 1:15 am Juliano Cavalca

    Fer,

    Mais Lost até o final da semana. :)


  8. em 13 Outubro, 2008 às 1:01 am Sobre os roteiristas de Buffy « Cavalca Blog

    [...] eu ainda tinha saco pra escrever longos textos sobre as séries que eu assistia (exemplos aqui e aqui), eu planejava fazer um sobre Buffy – A Caça Vampiros. Um dos assuntos que eu comentaria seria o [...]



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