Cavalca Blog


Smallville em definitivo (parte 1)
13 Abril, 2008, 2:07 am
Arquivado em: Smallville

Olhando lá atrás, lembrando da primeira vez que assisti ao piloto de Smallville, a coisa que mais me encantou foi Clark Kent, último filho de Krypton e dono de habilidades sobre-humanas, não conseguir chegar perto da menina pelo qual era apaixonado.

Qual de nós nunca sentiu essa timidez, essa incapacidade de encarar nos olhos a pessoa amada, que gaguejou e virou o rosto? Usando um colar de Kryptonita como metáfora, a série conseguiu falar muito sobre um assunto vivido por todos os adolescentes.

O chove-não-molha entre Clark e Lana (que nem sempre foi uma sonsa - desgraçada - quero-que-você-morra-o-quanto-antes) era um dos carros-chefes do programa, mas não era o único. Uma das maiores sacadas de Alfred Gough e Miles Millar foi perceber que as origens do Superman estavam bem bagunçadas a algum tempo, o que era uma oportunidade única de criar o seu próprio Canon do personagem. Claro, muita gente torceu o nariz - mas o que certas pessoas pareciam fazer questão de não ver é que: (1) muitas das liberdades criativas mostradas pela série já haviam sido mostradas antes (pelo que me consta, a amizade entre Kent e Lex data de uma HQ dos anos 80) e (2) a série é a visão de seus criadores. Tá escrito lá na abertura: ‘desenvolvido por Al Gough e Miles Millar a partir dos personagens de Jerry Siegel e Joe Shuster’. É o que eles pensam sobre aquele universo. Não importa que Lex seja aparentemente bem intencionado e que Perry White já conheça Clark antes que o último vá para Metrópolis depois de adulto. Se eles conseguissem tirar algo bom disso, beleza.

E eles conseguiram. A combinação de drama adolescente, cenas de ação com ótimos efeitos especiais, quotes inesquecíveis (‘A nossa amizade ainda vai entrar pra história’, etc), trilha sonora viciante e brincadeiras com a mitologia do Super-homem conseguida nos primeiros anos explica com facilidade o sucesso que o programa teve.

Tudo bem que a primeira temporada era meio repetitiva, tendo quase sempre como antagonista um Monstro da Semana (ou em bom inglês, um ‘Freak of the Weak’), cuja anomalia tinha como explicação alterações genéticas causadas por kryptonita (‘A verdade está aqui dentro”, diria Fox Mulder). Mas desde aquela época, episódios que fugiam da fórmula tradicional se diferenciavam. Rogue serviu como um prelúdio, ao mostrar que o maior inimigo do Superman pode muito bem ser alguém mortal e não mais uma aberração. Zero é certeiro em mostrar a lealdade (com traços de malícia, fique bem claro) de Lex, e como suas boas intenções acabariam se voltando contra ele em algum momento.

Durante os dois os três anos seguintes, a coisa foi indo em linha ascedente. As arestas iam sendo aparadas: a mala do Whitney foi mandada embora, Lionel foi promovido a personagem regular e passou a ter cada vez mais tempo de tela, vários personagens do universo Superman começaram a pipocar, os diálogos foram ficando cada vez mais apurados (principalmente aqueles entre Lionel e Lex - certa vez um amigo meu disso que um ótimo spin-off de Smallville seria colocar Lionel e Lex em uma sala conversando sobre algum assunto aleatório), entre outros aspectos menores.

Ali em cima eu falei sobre a trilha sonora. E quem acha que Grey’s Anatomy é o state-of-the-art da seleção musical em séries de TV, é porque nunca viu Smallville. Em muitas ocasiões durante os anos iniciais, havia uma verdadeira simbiose entre som e imagem. Aqui vão os cinco melhores exemplos.

01. Johnny Cash - Hurt (3×08 - Shattered) - Ver Lionel encarando o filho dentro de uma camisa de força ao som da voz cansada de Cash é simplesmente de arrepiar cada pêlo do corpo. Detalhe para letra que casa perfeitamente com o momento:

“What have i become, my sweetest friend? Everyone I know goes away in the end. You could have it all, my empire of dirt. I will let you down, I will make you hurt. if i could start again, a million miles away. I would keep myself, I would find a way.”

02. U2 - Beautiful Day (1×15 - Nicodemus) - é nesse episódio que acontece o histórico streaptease de Lana à beira da piscina (trata-se de uma dublê de corpo, claro. There’s no fucking way da Kristin Kreuk ter aquelas curvas). Mas a segunda melhor cena é a última, com Clark e Lana admirando a vista da cidade, sentados no topo do catavento da fazenda vizinha.

03. R.E.M (3×04 - Slumber) - nesse episódio, Clark fica preso dentro dos sonhos de uma garota (!), e sempre que ele se encontra nessa situação, é executada uma canção do R.E.M. é executada. Sacou? Não? Então consulte o pai dos burros.

04. Michael Andrews - Mad World (2×11 - Visage) - Tears for Fears é uma das minhas bandas prediletas. E quando vi uma música deles sendo usada num final de episódio (no caso de Smallville, isso corresponde a hierarquia musical máxima) eu quase tive um síncope. Lembro como se fosse hoje, eu na casa da vó, olhos vidrados na tela, vendo Clark e Lana abraçados na caverna (lembram da caverna?) ao som da bela regravação que Andrews dez desse clássico dos anos 80.

05. Evanescence - My Immortal (3×19 - Memoria) - muito difícil conter as lágrimas quando Clark, depois de ter uma visão muito real de sua progenitora biológica, procura aconchego na sua verdadeira mãe. Afinal, como diz o dito popular, mãe é quem cria, certo?

E tem a Chloe, claro. A responsável pelo adiamento da minha desistência da série (que ocorreu oficialmente no começo da sétima temporada). É fascinante ver que dentro de um universo com tantas personagens femininas icônicas, aquela que mais desperta paixões é justamente a criada especificamente para o programa. Chloe sempre foi a sidekick preferencial de Clark (Lana sempre foi muito cú-doce e quando Lois apareceu, o espaço da Srta. Sullivan já estava bem consolidado). Depois de se apaixonar perdidamente por Clark e ser rejeitava (ela lendo a carta em Fever é de cortar o coração), de flertar rapidamente com o lado negro da força, ela assumiu sua função de maneira exemplar. E fazer com ela se tornasse ciente da condição de Clark antes de quase todo mundo, foi uma decisão criativa acertadíssima (uma das últimas, inclusive). E eu não sei foi por causa da simpatia contagiante de Allison Mack (por falar nisso, sabiam que Kristen Bell foi cotada para interpretar a personagem? Não é a toa que sua Veronica Mars lembra tanto Chloe), mas durante boa parte do tempo, ela pareceu estar imune à decadência do show (mas claro, até isso conseguiu ser estragado eventualmente).

A partir da quarta temporada, a participação de Gough e Millar como escritores desaparece por completo (o último roteiro em que eles são creditados é justamente a premiere do quarto ano). E pelo jeito, a presença deles como showrunners, gerenciando a produção de episódios, expirou mais ou menos nessa data, já que o número de besteiras que se sucederam a partir do quarto e principalmente quinto ano foi assustadora (nem vou dar exemplos específicos, se você chegou até aqui, é porque não precisa deles).

Ainda havia coisas que me agradavam bastante na série, como o último episódio que me deixou entusiasmado de verdade, Hidden (5×03) em que basicamente o espírito do Marlon Brando baixou no John Glover (o que deu origem a uma das maiores enrascadas criativas das temporadas posteriores: qual a real relação de Lionel com a consciência de Jor-El? Isso nunca foi respondido satisfatoriamente).

E eis que chega a notícia de que Gough e Millar estão deixando o programa. A explicação dada pelos insiders é que (1) eles estavam demandando um cachê maior e (2) querem se dedicar mais tempo à roteirizar filmes. O problema é: que filmes eles andam escrevendo. Uma rápida procura no imdb entrega a lista completa (desde 2001, quando a série começou): Showtime (aquele com a dupla De Niro/Murphy), Bater ou Correr em Londres (eles já haviam escrito o primeiro filme), Herbie: Meu Fusca Turbinado e A Múmia 3 (ainda não vi, mas sei que será muito ruim). Eles ainda são creditados como os escritores do argumento de Homem-Aranha 2. Mas eu acredito que os maiores créditos do script do filme venham do veterano Alvin Sargent, vencedor de 2 Oscars,

Ou seja, nada de muito relevante. E eu duvido que eles consigam produzir algo que sequer chegue perto do nível de excelência dos primeiros anos de Smallville, principalmente pelo fato que eles jamais serão chamados para projetos que exijam tanto deles quanto reinventar a mitologia do Superman.

E onde entram Todd Slavkin, Darren Swimmer, Kelly Souders e Brian Peterson (os novos showrunners) na história? Visto que eles são os principais responsáveis pelas pataquadas das temporadas mais recentes, é no mínimo justo que eles sejam creditados adequadamente pelas besteiras que vão ao ar semanalmente. Ou então quem sabe, o efetivo controle sobre a produção somado ao fato do próximo ano ser o último da série, faça com que recuperem o brilho perdido. Mas confesso que não estou disposto a testar essa hipótese.

E o mais triste é que nem o elenco parece agüentar mais. O encerramento do show terá participações reduzidas de Michael Rosenbaum (o que não faz o menor sentido narrativamente, mesmo com a lógica bagunçada dos últimos anos) e Kristin Kreuk (levando em conta que perderam completamente a mão com a personagem faz um bom tempo, essa até faz sentido). Os únicos do elenco original que estrelarão as oito temporadas serão Tom Welling (que invariavelmente ficará marcado pelo personagem pelo resto da vida, nessas horas seria bom não ser um ator medíocre) e Allison Mack (acho que isso aqui resume tudo - pelo menos espero que ela esteja ganhando muito bem). O último que sair apague a luz, por favor.

(Haverá pelo menos mais um texto, que versará sobre a minha relação com a série de uma forma mais pessoal. Achei melhor dividir pra facilitar a leitura. Mas não tenho idéia de quando será publicado.)


5 Comentários até o momento
Deixe um comentário

caramba velho
q texto
acho q vc falou tudo que todo fã de smallville sente, menos os imbecilizados
as musicas de small eram foda
alias, os finais eram de arrepiar
as cenas de lex, sério, eu comecei a assitir a série por causa dele, lembro que qndo vi um ep da terceira temporada, eu disse, perae, esse cara podia ser eu, como assim ele vai ser o maior vilão da terra, tenho q assistir isso. lembro q na epoca falava q os criadores da série tinham se fodido porque eles teriam q fazem smallville pelo resto da vida, mas quem manda falar antes do tempo, hj me pergunto pq a série n terminou na terceira temporada.

e como assim vai demorar pra sair o outro texto, ahh meu amigo, trate de fazê-lo logo.

parabéns, excelente texto.

Comentário de Paulo Fiaes 13 Abril, 2008 @ 9:58 pm

Excelente textO! Muito bom mesmo!

Eu adoro Smallville, concordo que a serie teve varios pontos baixos, mais discordo da gde maioria que insiste em dizer que a serie não deveria mais estar no ar. Pra mim as ultimas 3 temporada tiveram um avanço muito bom e a atual está ainda melhor!!!
~
Não sei o que vai ser da 8 temporada, até estou com medo de agora sim a serie fracassar de vez, mais ainda tenho esperança q mesmo com o azar que ela vem sofrendo a nova temporada nos traga surpresas.

passa la!

Comentário de Lucas 14 Abril, 2008 @ 10:45 am

Muito bom o texto…me deu um saudades dos velhos tempos de Smallville

Comentário de Larissa 20 Abril, 2008 @ 2:05 am

No “Superman” original, o primeiro filme, sinceramente não me lembro se Clark, quando foi ser repórter em Metrópolis, já conhecia a Lois Lane. Não me parecia que eles tivessem nada em comum, principalmente porque a Chloe é a melhor amiga de Clark jovem e prima de Lois. Nunca me caiu bem esse aparecimento da Lois, apesar de ser até um personagem legal.
Mesmo sendo uma criação livre, independente, acharia mais legal quando o passado explicasse, criativamente, os acontecimentos dos filmes “Superman”.Como já aconteceu em várias ocasiões. Por exemplo, o Oliver Green,ou o Aquaman,entre outros, está nas HQ’s, e também o negócio da Liga da Justiça. Isso diz meu marido, pois não tenho idade pra lembrar… uma das coisas que ele me disse é que, nas HQ’s a Lana era namorada do Pete, não tinha nada a ver com o Clark…será?

De qualquer forma, pra mim não faz muita diferença toda a licença criativa que os produtores quiseram usar. Gosto muito da série, acho que já foi melhor, mas sempre tenho expectativas quanto às tramas.

Se algo aí não procede, sorry, não fiquem chateados. Abraços.

Comentário de NanaZylber 6 Maio, 2008 @ 7:08 pm

Brilhante Juliano.

Acompanho seus textos e comentários sobre Smallville desde a comunidade no Orkut. E você resumiu de forma brilhante o que é (ou foi) a série. Acabo de ver o fim da sétima (!!!!!) temporada e fica a nítida impressão de que ela deveria ter acabado há duas ou três temporadas. A repetição das coisas é irritante e broxante.

Lendo seu texto, viajei na excelente terceira temporada, auge das batalhas verbais entre Lex e Lionel. E comparamos com hoje, vemos episódio rasos e mecânicos. Triste.

Sei que você parou de acompanhar a série. Eu, na verdade, só continuo vendo, para saber onde isso vai acabar. Mas fica a certeza de que os pais de Smallville perderam uma grande chance de fazer a série entrar para a história, se tivessem terminado ela após a quinta temporada.

PS.: Entre as cenas “musicais” a serem lembradas, acho que não pode faltar aquela do Clark se preparando para o futebol americano ao som de Boulevard of Broken Dreams. Sensacional.

Abraço,
Vitor Sergio

Comentário de Vitor Sergio 19 Maio, 2008 @ 12:35 pm



Deixe um comentário
Linhas e parágrafos quebram automaticamente, endereços de email não serão mostrados, HTML permitido: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>